Prejuízos, excessivo endividamento, sem dinheiro próprio, salários descontrolados e a falência técnica a pairar sobre o horizonte. Há muito que sabemos que Benfica, FC Porto e Sporting vivem bem acima das suas possibilidades para poderem competir com os tubarões europeus. Mas o acumular de desequilíbrios financeiros ano após ano poderá deixar os três grandes à beira de fechar portas. E nem a disciplina imposta pela UEFA conseguirá salvar os clubes dos desvarios dos seus responsáveis.

Se é o tipo de adepto que apenas se importa com os resultados dentro de campo, no final de contas e de forma inconsciente, até tem razão. Por mais competentes que sejam os gestores, as finanças dos clubes são jogadas no 1×2 do Totobola.

O Finance Football analisou as contas das SAD de Benfica, FC Porto e Sporting na última década. Aparentemente, o bom desempenho nas provas europeias e as receitas extraordinárias alcançadas com as vendas de jogadores para os maiores clubes europeus mostram-nos que está tudo sob controlo. Desengane-se. Temos cinco gráficos que mostram como os três grandes estão a arriscar a sua própria sobrevivência.

1. Prejuízos e mais prejuízos sem UEFA

Nunca é bom sinal para uma empresa estar dependente de fatores que não pode controlar. É o que acontece com Benfica, FC Porto e Sporting, que fazem depender de forma séria a viabilidade das suas contas das receitas que obtêm da UEFA. Quão dependentes estão? Bastante. Tão dependentes que sem as competições europeias os três grandes só conheciam prejuízos. Ano após ano.

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Infografia de João Martinho (Fonte: CMVM)

O FC Porto surge como clube mais dependente do dinheiro da UEFA. O que é normal, dado ser uma das equipas mais bem sucedidas na Europa nos últimos anos. Mas nos anos em que escassearam bons resultados nas competições europeias, a SAD portista ressentiu-se. E de que maneira.

Dos três grandes, apenas o Sporting conseguiu obter resultados positivos sem UEFA na última década. Já o Benfica, apesar de toda a máquina de faturação e da enorme massa associativa, teria as suas contas todas no vermelho sem as receitas provenientes das competições europeias.

2. Salários no limite

A UEFA tem bem claro: para as contas dos clubes permanecerem sustentáveis os encargos com salários não devem exceder os 70% das receitas. Acima deste patamar, os emblemas arriscam a comprometer seriamente as suas finanças, arriscando a falência. Os três grandes sabem disso? A julgar pelo seu comportamento, nem por isso.

No caso do FC Porto, a temporada passada foi de enorme exagero: todas receitas que gerou em 2015-2016, a SAD gastou-as apenas nos salários aos jogadores, colocando os cofres dos portistas no limite da sua ação. Não pode comprar jogadores e não pode melhorar os contratos dos melhores atletas porque não sobrou dinheiro para mais nada. Preocupado?

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Infografia de João Martinho (Fonte: CMVM)

Se fosse sportinguista, teria mais razões para isso. Na época 2012/2013, o Sporting esteve à beira do abismo: gastou 41,7 milhões de euros apenas em salários quando faturou apenas 32 milhões. Onde foi buscar o dinheiro que faltou? Endividou-se ainda mais.

Entretanto, o Benfica tem conseguido fazer uma gestão mais equilibrada da sua política salarial. Os encargos com remunerações tem ficado abaixo de 70% das receitas. Mas isto acontece sobretudo graças ao bom desempenho do clube nas competições europeias. Basta reparar no que aconteceu na época 2008/2009, quando um plantel com estrelas com Aimar, Suazo, Reyes e Di María ficou em último lugar da fase de grupos na Liga Europa.

Ou seja, se o Benfica se pode gabar com as suas contas atuais, o passado recente mostra quão rapidamente as finanças podem degenerar-se. Basta uma bola ao poste numa competição internacional para colocar tudo em causa. Sporting e FC Porto têm corrigir rapidamente estes desvios face às exigências da UEFA sob pena de violarem o Financial Fair Play e arriscarem a presença nas competições europeias.

3. Dependência da venda de jogadores

É um facto. Melhor do que ninguém, os clubes portugueses sabem potenciar e valorizar os seus jogadores. Sobretudo o FC Porto e Benfica e, mais recentemente, o Sporting, que têm feito boas fortunas com só a alienação de passes de jogadores. Mas a qualquer momento o cenário pode mudar. E aquilo que parece ser uma gestão equilibrada do clube facilmente deixa os responsáveis com a corda na garganta perante a ausência de um encaixe financeiro importante.

Neste ponto, vale a pena olhar para os prospetos de uma das inúmeras emissões obrigacionistas que os três realizaram nos últimos anos para contornar a indisponibilidade da banca para lhes emprestar dinheiro.

“Os proveitos resultantes de transferências de jogadores da SAD assumem um peso muito significativo nas contas de exploração da empresa. Esses valores estão dependentes da evolução do mercado de transferências de jogadores, da ocorrência de lesões nos jogadores, da capacidade de formar e desenvolver jogadores que consiga transferir e da manutenção de um enquadramento legal que permita a continuidade deste tipo de receitas nos níveis esperados”, diz um dos prospetos sobre os riscos que o investidores vão assumir se quisermos emprestar dinheiro do seu bolso aos três grandes.

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Infografia de João Martinho (Fonte: CMVM)

Isso mesmo. Basta uma lesão de um jogador importante para um clube deixar de encaixar 30 milhões de euros num ápice. E as contas vão ao fundo.

Se pensarmos que a valorização dos jogadores está associada normalmente ao bom desempenho nas competições europeias, afirmar as finanças estão presas a fatores que os próprios gestores dos clubes não podem controlar é tão verdade como assustador.

E sabia que quase todos os passes dos jogadores estão já “vendidos” aos bancos como forma de garantia das dívidas dos clubes?

4. Falência técnica

Geralmente, uma empresa financia a sua atividade com recurso a duas principais fontes de financiamento: ou tem dinheiro seu bolso (os capitais próprios) para investir e explorar o seu negócio ou endivida-se (junto da banca, com empréstimos obrigacionistas, etc) na esperança de que o negócio vai correr bem para poder reembolsar o empréstimo e pagar os juros.

Nos três grandes, o cenário de enorme descapitalização das SAD mostra quão arriscadas têm sido as estratégias dos responsáveis para ter equipas competitivas no momento em detrimento de estabilizar o clube a médio e longo prazo.

Em termos contabilísticos, uma empresa com capitais próprios negativos está em situação de falência técnica. Isto é, os ativos do clube (jogadores, contas bancárias, etc) são inferiores às suas dívidas. Principal implicação? Se for preciso pagar as dívidas rapidamente, não há dinheiro para o fazer. O resultado é a falência efetiva do clube.

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Infografia de João Martinho (Fonte: CMVM)

 

Só nos anos mais recentes é que FC Porto e Benfica conseguiram constituir capitais próprios para desenvolverem a sua atividade. O Sporting há muito que se habituou a andar de bolsos vazios. Como é que os clubes conseguem sobreviver nesta situação? A resposta é que a banca abre muitas vezes os cordões à bolsa e permite-lhes financiar a atividade corrente. Mas isto tem um senão: a dívida vai aumentando e aumentando.

A expectativa dos bancos, obviamente, é que mais cedo ou mais tarde os clubes possam gerar resultados positivos para reaver os empréstimos que concederam. Mas, pelo meio, ninguém ignora o risco, e isso traduz-se nas taxas de juro cobradas aos clubes. Não é por acaso que sempre que emitem dívida dirigida ao retalho, os três grandes oferecem sempre juros acima de 6%, quando as outras aplicações, neste momento, muitas vezes mal cobrem a inflação. Os juros destinam-se a cobrir o risco de os clubes não conseguirem vir a pagar parte do capital. E isto leva-nos ao ponto seguinte: encargos com dívida.

 

5. Engolidos pela dívida

Neste capítulo, poderíamos estar a falar dos enormes passivos (em termos simples, o que devem aos bancos, fornecedores, outros clubes, etc) dos três grandes. Ao invés, optamos para mostrar os encargos financeiros — representando os juros e reembolsos que tem de pagar pelos feitos pelos empréstimos que fez no passado — dos clubes que vão limitando cada vez mais a capacidade das SAD para gerar lucros.

A análise à última década mostra-nos que os encargos das SAD com a dívida financeira tem subido de forma imparável. Na última época, Benfica e FC Porto pagaram mais de 15 milhões só para pagar juros e fazer reembolsos — dinheiro que poderia ser canalizado para a compra de um bom jogador, por exemplo, mas que foi direitinho para a banca e outros credores.

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Infografia de João Martinho (Fonte: CMVM)

Em relação ao Sporting, a redução considerável dos encargos financeiros entre 2013 e 2015 não significa que a dívida tenha baixado. Simplesmente a SAD leonina deixou de pagar aos bancos no âmbito de um processo de reestruturação da dívida para evitar o estrangulamento das finanças do clube de Alvalade.

O que significa isto?

O que significa tudo isto? Para os adeptos, pouco. Os apoiantes querem saber do que que passa em campo, e passa-lhes ao lado o que acontece dentro da paredes das SAD. Mas para os investidores, que arriscam o seu dinheiro, estas contas deviam dizer muito.

Até agora, o investimento em ações e obrigações do futebol têm-se com o registo histórico: sim, já todos tiveram problemas, mas nenhum faliu até agora. Mas, como sempre se lê em prospetos de investimento, o rendimento passado não serve de certezas para o rendimento futuro. E quanto ao “nunca faliu”, lembre-se que até 2008 o mesmo era válido para os bancos portugueses.

5 Comentários

  1. Não está muito feliz este artigo…

    1. Prejuízos e mais prejuízos sem UEFA
    Já agora retiravam as restantes receitas, as da 1ª Liga, e assim, ainda daria um prejuízo maior…
    É quase inevitável que os 3 grandes estejam presentes nas provas da UEFA. Logo pelo menos 3M€/época têm que fazer, mesmo que fiquem em último na fase de grupos da Liga Europa.
    Que retirem as receitas/custos extraordinários com vendas/compra de jogadores, ainda se percebe, agora retirarem receitas que existem sempre…
    2. Salários no limite
    Ora o limite são 70%, e os salários no Benfica nos últimos 7 anos têm este peso, 57,64%, 50,77%, 52,82%, 57,11%, 60,15%, 58,45%, 48,75%.
    Por aqui estaria o Benfica muito saudável.
    3. Dependência da venda de jogadores
    Ora o desempenho operacional médio do Benfica (sem compra nem venda de jogadores) nas últimas 7 épocas foi de -605.125€/época. Isto quando teve proveitos médios de 94.614.676€/época. E incluindo compra e venda de jogadores teve um saldo médio de +16.471.572€/época.
    Ou seja, dependência insignificante e com compra/vendas atinge lucro de 16,5M ano.

    Então qual é o problema do Benfica?
    Apenas um, os juros, encargos financeiros. Dar de comer ao sistema financeiro.
    São 16.013.866€/época que o Benfica pagou nos últimos 7 anos.
    Sendo que em 2015/16 foram 17.482.000€ os encargos financeiros.
    Portanto o Benfica após ter consolidado a componente operacional e ter atingido lucro de 16,5M ao ano, excluíndo encargos financeiros, tem que reformular a dívida. Uma vez que é agora uma entidade mais credível para os mercados, deve procurar reduzir o encargo com juros, obtendo empréstimos com taxas de juro mais baixas. E ao mesmo tempo tem que procurar abater esse passivo.

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