Não é inédito no futebol português, mas não deixa de constituir um sinal de alerta para as finanças do clube da Invicta. Na época transacta, um ano em que os prejuízos atingiram o valor histórico de 58 milhões de euros, o FC Porto teve de mobilizar praticamente todas as suas receitas operacionais apenas para conseguir pagar salários.

As contas são feitas com base no Relatório & Contas da época passada. De acordo com o documento, relevado recentemente, os gastos com a massa salarial aumentaram cerca de 8%, fixando-se nos 75,8 milhões de euros. Isto ao mesmo tempo que as receitas operacionais – na prática, todas as receitas do Porto, excluindo a venda de passes de jogadores – caíram 18%. Tudo somado, o peso dos salários nas receitas passou de 74,9 para 99,9%.

Por questões de prudência, a UEFA recomenda que as despesas com a massa salarial não ultrapassem os 70% das receitas. Apesar de nem todos os clubes europeus respeitarem essa recomendação, a maioria das equipas consegue ficar abaixo dessa fasquia. O Finance Football comparou os valores e concluiu que, entre as 20 equipas europeias que mais gastam em salários, apenas cinco não respeitam a “regra dos 70%” – e, entre estas, apenas duas (Galatasaray e Roma) ultrapassam os 80%.

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Como é que se chegou até aqui? Há explicações dois dois lados da equação. No caso das receitas operacionais, o mau comportamento anda de mão dada com a má performance desportiva da equipa. De facto, no ano passado as receitas de merchandising, direitos televisivos e prestações de serviços cresceram relativamente ao período transacto. O problema foi a má prestação na Europa, que implicou uma descida dos montantes transferidos pela UEFA na casa dos 24 milhões de euros.

Já no que diz respeito aos salários, a questão é mais complicada e provavelmente não poderá ser resolvida a curto prazo. Ao longo dos últimos anos, o FC Porto foi contratando vários jogadores a preços (e salários) elevados, que não renderam o esperado e que, mesmo depois de transferidos a título de empréstimo, continuaram a onerar a folha salarial do clube da Invicta. Na prática, o clube tem agora a responsabilidade de pagar salários de vários jogadores que já nem sequer jogam pela equipa. Neste momento, há mais de 80 jogadores sob contrato.

A isto somam-se as indemnizações a pagar a jogadores – e treinadores – que saem antes de o contrato terminar. Segundo informações veiculadas na imprensa, as rescisões de Lopetegui, José Peseiro e Helton custaram 4,4 milhões de euros. No caso do mais recente ex-treinador, o Jornal de Notícias noticiou até que o espanhol continua a receber do Porto um ordenado que está quase ao nível do vencimento do actual treinador, Nuno Espírito Santo.

Os problemas financeiros colocados pela pesada massa salarial já foram, de resto, assumidos pelo próprio FC Porto. Durante a apresentação do Relatório & Contas, o administrador da SAD para a área financeira, Fernando Gomes, revelou inclusive que o clube quer reduzir 25 milhões de euros a esta rubrica ao longo da época em curso, o que constituiria um corte de custos inédito no FCP.