A hiperinflação não é só um bicho papão da economia. Tem também o seu lugar no desporto rei. Cálculos realizados pelo Finance Football mostram que os clubes europeus estão dispostos a abrir cada vez mais os cordões à bolsa para comprar os melhores jogadores. Até já pagam o dobro daquilo que eles valem em negócios multimilionários que podem comprometer o frágil equilíbrio de forças no futebol.

Provavelmente já deve ter reparado nos preços astronómicos pagos pelos jogadores hoje em dia. Só este ano, se juntarmos o valor das dez transferências mais caras, atingimos quase a marca dos mil milhões de euros. Nunca antes o mercado de transferências tinha visto tantos zeros juntos. O futebol gera muito dinheiro e cada vez mais o valor dos jogadores vai aumentando exponencialmente.

Fonte: Finance Football

O gráfico acima ilustrado retrata a evolução do rácio entre o valor de transferência e o valor de mercado. Apenas estão incluídas as cinco maiores de transferências de cada ano, mas rapidamente saltamos para uma conclusão: o fosso entre o valor de um jogador e aquilo que um clube tem de pagar por ele está cada vez mais fundo. Há quatro anos os clubes pagavam o jogador quase pela sua avaliação de mercado; hoje pagam o dobro do valor que lhes é atribuído.

A ida de Neymar para a capital francesa é o perfeito retrato da hiperinflação a fazer das suas. Com o rótulo de um dos melhores jogadores do mundo, Neymar Jr. estava avaliado em 100 milhões de euros. Todavia, este valor nada significou para o Paris Saint-Germain, que desembolsou uma quantia recorde de 222 milhões de euros. Um preço superior ao dobro do seu valor de mercado. Verdade seja dita, o canarinho entrou a todo o gás na Ligue 1, mas será que justifica o astronómico preço pago pelo clube parisiense?

O PSG é também responsável pela “pseudo-contratação” de Kylian Mbappé aos seus rivais Mónaco. Apesar de contar com uma avaliação de 35 milhões, Mbappé chocou o mundo do futebol com uma mudança arrojada pelo preço de 180 milhões de euros. Feitas as contas, o golden boy francês saiu por um valor cinco vezes superior àquele que valia.

Um jogo em que poucos brincam

Este mercado multimilionário é apenas acessível a um restrito grupo. Espanha, França, Itália, Inglaterra, Alemanha e, mais recentemente, China, são quase os únicos países onde os seus clubes estão aptos a participar nesta mostra de ostentação. Omitindo este lote de países, a transferência mais cara deste ano foi a de Leandro Paredes para o Zenit da Rússia, avaliada em 23 milhões de euros. Surge apenas como a 51ª transferência mais cara da época. Não muito longe surge a compra de Óliver Torres pelo FC Porto, por um preço de 20 milhões.

Os números contam a verdade crua e dura sobre a realidade do mercado de transferências atual. Este começa a tornar-se num recreio, onde apenas os meninos grandes brincam. Atualmente, o rácio entre o valor de mercado de um atleta e o valor pago para o contratar está num máximo histórico. Um jogador que esteja avaliado em 20 milhões custará em média cerca de 50 milhões de euros. Num cenário hipotético, as vendas de Danilo Pereira, Pizzi e Gelson Martins rondariam este valor.

Alternativa a um mercado inflacionado

De maneira a contornar este mercado inflacionado, alguns clubes procuram ser o mais eficientes possível na procura de jogadores. Alguns dos melhores exemplos estão bem à frente dos nossos olhos. O FC Porto reforçou-se esta época com jogadores avaliados num total de 60 milhões de euros. Contudo, não gastaram nem um cêntimo para garantir os seus serviços.

O segredo? Aproveitar jogadores que tinham sido anteriormente emprestados e dar uma oportunidade a jogadores vindo da equipa B/camadas jovens. O caso dos “dragões” não é único, mas na nata do futebol mundial as coisas não são feitas deste jeito.

Salários exorbitantes acompanham inflação

De forma a tentar solucionar este problema (ou pelo menos remediar), a Associação Europeia de Ligas Profissionais (EPFL) está já a monitorizar o mercado de transferências, “caracterizado por gastos excessivos” e “inflação nos salários”. Sim, não são só os montantes pagos nas transferências que estão inflacionados. Também os salários estão mais altos que nunca.

Os jogadores de top mundial têm atualmente salários de fazer inveja a CEOs de grandes multinacionais. Atualmente, Cristiano Ronaldo aufere cerca de 38,9 milhões por ano. Muita massa para quem no início da década recebia à volta de 8,7 milhões de euros a representar os merengues.

Pelo andar da carruagem, nem a hiperinflação, nem o “fair play” financeiro parecem fazer parar os grandes clubes de levarem a cabo as suas shopping sprees. Continuaremos a ver o futebol a levar ao extremo aquilo que o dinheiro consegue comprar e a tornar-se cada vez mais um negócio e menos uma paixão?

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